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A voz do morto

POR A. O. TILELLI



Seu Marcelino era o dono de um pequeno empório de secos e molhados lá na cidade onde eu nasci e passei a minha infância.

O italiano era a alegria da criançada. Também pudera, o seu grande prazer consistia em distribuir balas e outras guloseimasà meninada quando esta passava pelo seu comércio em direção ao grupo escolar. Lembro-me dos gostosos sanduíches de mortadela que seu Marcelino me preparava a cada manhã. Era a delícia da minha lancheira. Não sei por que razão, seu Marcelino ganhara da molecada uma alcunha nada elogiosa e que marcou para sempre a vida desse simpático e bom homem, como também de todos os seus amigos e vizinhança: Marcelino sem ceroulas.

Nunca entendi o porquê desse título honorífico, que o nosso querido comerciante aceitava de bom grado. Pacato como era, seu Marcelino sempre reagia sorridente quando as crianças assim o chamavam.

Ceroulas eram um tipo de cuecão de pernas longas que eram amarradas logo abaixo dos joelhos. Numa bela manhã de sol, fomos surpreendidos com uma notícia indesejada e triste. Seu Marcelino havia sofrido um infarto fulminante, desses que não mandam aviso e que, apesar de todos os esforços de ventilação boca a boca que se adotava naqueles tempos, acabou evoluindo para óbito. Em resumo, seu Marcelino estava morto, conforme atestara o Dr. João, médico de muitas famílias da cidade. Perdemos para sempre a querida fi gura do seu Marcelino e, em consequência, perdemos também as balas e as guloseimas que ganhávamos quando íamos para a escola, esse sim o pior dos golpes para a criançada.

Continuam gravadas em seus mínimos detalhes em minha memória de apenas 10 anos as cenas do velório de seu Marcelino. A câmara mortuária foi instalada com todo o capricho em um pequeno salão contíguo ao empório, de aproximadamente 30 metros quadrados, local em que seu Marcelino recebia os amigos de fim de semana para um jogo de truco ou de escopa. O recinto era de uma simplicidade franciscana, paredes de reboco pintadas de um amarelo envelhecido, cobertura sem forros e lâmpadas penduradas caindo diretamente do telhado. No meio do salão, uma tosca mesa retangular de um por dois metros e meio toda revestida com um pano acetinado brilhante, sobre o qual foi colocado um caixão de defunto muito simples também revestido com um tecido roxo sugerindo muita tristeza, seis castiçais com velas acesas de mais de um metro de altura circundando o ataúde fúnebre, cadeiras de palhinha dispostas ao redor do ambiente e encostadas às paredes, e fl ores, muitas fl ores. O ambiente enfim era um convite ao angustiante sofrimento das pessoas sinceras ali presentes e uma deleitosa atração para os hipócritas e falsos amigos que nunca faltam a esses acontecimentos, oportunidade em que aproveitam para contar a última piada do dia e repetir a horrorosa frase “morreu, fedeu, antes ele que eu”.

No esquife sobre o catafalco funerário o corpo do seu Marcelino jazia impassível, olhos cerrados, muito bem barbeado e bem penteado, esmeradamente composto dentro do seu traje negro a rigor, camisa branca bem engomada, gravata, sapatos pretos novinhos em folha, e um indefectível terço enrolado em suas mãos rígidas e frias, tudo como mandava o figurino da época. Como costumam dizer os circunstantes nesses momentos de melancolia e dor, parecia que o morto estava vivo e sorrindo.

Um frade franciscano paramentado com sobrepeliz e estola, acompanhado de um coroinha que portava um turíbulo, aspersório com água benta e um livro de orações, veio encomendar o corpo. Fazia orações numa língua estranha, talvez o salmo De profundis, suplicando ao pai eterno que o falecido fosse recebido em festas lá no paraíso. Bem o merecia o encomendado, uma vez que fora em terra um homem temente a Deus, o que era a expressão da verdade, pelo menos aos olhos das crianças.

Com a noite avançando e terminada a reza do terço, algumas pessoas, que lá estavam só para marcar presença, iam se retirando para seus lares, restando apenas aquelas que realmente amavam o seu Marcelino.

Eis senão quando, altas horas da noite, começa do nada um troante e estridente vozerio, com as mulheres que guardavam o corpo saindo em disparada para o meio da rua, esbaforidas e assustadas, berrando o seu Marcelino está vivo, o seu Marcelino está vivo, o seu Marcelino falou, o seu Marcelino mexeu os olhos e abriu a boca.

Com todo o respeito pelo seu Marcelino, mas o tumulto foi tal que até parecia um gol do Corinthians. Um verdadeiro pega pra capar, um Deus nos acuda! Um horror apavorante, enfi m! O salão do velório ficou apinhado de gente que, diante da algazarra geral, surgia de todos os lados. Todos queriam ver o morto que estava vivo e falando. Em menos de dez minutos, Dr. João, o médico que atestara o óbito, visivelmente descrente, como por encanto, apareceu de pijamas no velório.

Muito contrariado, foi logo examinando o morto-vivo. Bastaram apenas 2 minutos para o Dr. João perceber que o falecido estava irreversivelmente morto. Após explicar que o fato não passava de um fenômeno natural conhecido como espasmo post mortem relativamente comum em cadáveres estufados pelo acúmulo de gases intestinais, o doutor retirou-se, não sem antes passar uma descompostura geral a todos os presentes pela manifestação explícita de ignorância. Às 11h, da manhã, o corpo do seu Marcelino, brindado com um segundo atestado de óbito, baixou sepultura sob os olhares atônitos dos seus muitos amigos. O Sr. Mortinho da Silva ainda deve estar lá aguardando o juízo final. Amém!


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