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O raposão, o galinheiro e a boiada

POR A. O. TILELLI



Conta-se que nos mais afastados rincões de uma grande nação havia uma conhecida área de terras incultas, onde as raposas cresciam e se multiplicavam desordenadamente. As raposas são uma espécie de carnívoros canídeos não propensos à formação de grupos coletivos e que agem à sorrelfa, em geral em pequenos bandos de três ou quatro. É natural, pois, que a vida dessa raça de bichos espertalhões obedeça à tradicional norma do cada um por si e Deus por todos, e que também vale para os animais irracionais. Como já dito por alguém importante, a raposa integra uma categoria animal privilegiada não sujeita aos costumes e sofrimentos de todas as demais raças comuns que podem ser livremente abatidas e subjugadas pelos mais fortes. Ou seja, a raposa é um bicho que deve ser tratado com um jeitinho muito carinhoso, ao contrário das demais espécies comuns e desimportantes, para as quais vale a forma da lei. Como dizem os predadores ladrões: às raposas tudo, aos demais animais a lei, inclusive a do cutelo e do abate. O esporte mais apreciado pelas raposas é a caça aos galinheiros da vizinhança. Os embates predatórios sempre têm início após a última novela que as emissoras de televisão exibem a cada noite, hora em que os criadores de galinhas caem nos braços de Morfeu para o seu merecido repouso noturno. Tanto raposas como avicultores costumam viver em paz, num clima de suave tolerância. Enquanto avicultores trabalham e INDICADOR JURÍDICO | 11 produzem de dia, as raposas rapinam à noite, e assim as fazendas vão vivendo suas bucólicas vidinhas sem mais tumultos, a não ser uma queixa aqui e outra ali. No geral, quase ninguém liga para as rapinagens das raposas, embora não se saiba até quando.

Havia pelas imediações um velho raposão que, desde jovenzinho, era dado ao extermínio de galinheiros, levando os seus donos a um desespero tal que estes não mais sabiam o que fazer para proteger as suas criações e conter os ataques desse vil exterminador. Esse esperto ladrão de galinhas não atacava apenas à noite. Para ele não tinha hora, nem sol, nem lua, nem frio, chuva ou calor. A intensa atividade saqueadora desse espécime animal era fruto de uma longa educação familiar, já que os seus ancestrais, de longa data, já eram dados à prática da rapinagem dos galinheiros existentes nas cercanias. Assim, desde o patriarca da família até a mais tenra raposinha, todos eram dados a essa praga de caça aos galinheiros.

Com o tempo passando, os costumes se modifi cando e já estando em idade avançada, o velho raposão decidiu transferir para um dos seus raposinhas adolescentes, considerado entre todos o mais esperto, a tarefa de continuar cuidando dos interes ses do bando. A escolha do velho patriarca recaiu sobre um jovem rebento da família que vinha revelando todas as condições de revolucionar os costumes vulpinos do seu clã. Não mais só a caça aos galinheiros da vizinhança. Já demonstrando o seu novo perfi l de exímio ladrão, o novo líder resolve, a bem do seu grupo empresarial, dedicar-se a um outro tipo de negócios: boiada. A simples perspectiva dessa nova atividade rapinante por parte das raposas da região muito assustou os fazendeiros locais. Imagine se esses caçadores de galinhas passassem ao extermínio do gado leiteiro e outros tipos de gado da região! Reunidos, os fazendeiros procuraram uma maneira sutil de expulsar tão ambicioso e sarnento raposão. Decidiram que não mais queriam sarna pra se coçar. Eis que entre os fazendeiros estava um que havia viajado por terras longínquas e se lembrava de certo planalto central onde gado reprodutor se multiplicava com muita facilidade e dava imensos lucros às raposas que, naqueles deliciosos páramos, foram montar os seus covis e as suas tendas. Naquele longínquo planalto central a carne bovina podia ser distribuída à tripa forra, tudo por conta de uma incontável multidão de trouxas sempre disposta a dar a sua pacífi ca contribuição. Era essa a senha que todos esperavam. Por meio de um artifício não só permitido pelos costumes da região como até incentivado, os donos de fazendas resolveram arremessar o raposão indigesto para o tal planalto central, fazendo com que um monte de outras raposas do mesmo clã familiar o acompanhas se e fosse organizar as suas quadrilhas lá naquelas áreas tão distantes dos seus galinheiros. Com as raposas bem ao longe, os fazendeiros praticamente se livraram das rapinagens noturnas comandadas pelo velho raposão, que foi montar a sua banca bem longe dali. Naquele planalto central, o raposão e o seu clã muito progrediram, as suas boiadas deram muitas crias, proliferaram, e assim todos passaram a viver felizes para sempre. A família do raposão por ver o seu negócio de boiada se transformar em uma multinacional da rapinagem. Os fazendeiros por terem se livrado do raposão e sua família.


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